Você já percebeu que, justamente quando tudo começa a dar certo, aparece uma briga, um problema ou uma tristeza sem explicação? Isso de acordo com Eckart Tolle no livro ” O poder do Agora” é o seu corpo de dor entrando em ação.

O corpo de dor é um conceito que Eckhart Tolle apresenta no livro O Poder do Agora. A ideia, da maneira como eu compreendo, é que vamos acumulando ao longo da vida experiências dolorosas, traumas, medos, rejeições e sofrimentos que não foram completamente elaborados. Imagine uma mochila onde vamos colocando tijolos, todos os traumas pelos quais passamos na infância e até mesmo padrões emocionais que podem atravessar gerações, e isso vai ficando cada vez mais pesado. Se você já voltou do mercado com sacolas pesadas, sabe que a única coisa em que consegue pensar é em chegar logo em casa e se livrar disso. Mas, no caso da nossa carga emocional, muitas vezes não temos consciência de que ela está nos fazendo mal porque nos identificamos com a mochila de pedras, achamos que ela faz parte do nosso corpo e, principalmente, de quem somos.
Será que escolhemos o sofrimento?
Nós escolhemos o sofrimento e não temos consciência disso. É claro que isso não significa que escolhemos conscientemente passar por situações dolorosas, mas podemos, sem perceber, participar da manutenção de determinados padrões de sofrimento. Às vezes, está tudo bem no relacionamento e arrumamos uma briga, ou entra dinheiro na conta e logo aparece uma conta. Ou você conhece alguém cuja vida parece uma sucessão de problemas, doenças e tragédias? Ou você está feliz e qualquer comentário ativa uma raiva, um sentimento que você não sabe explicar. A questão aqui é que somos responsáveis por tudo o que acontece conosco, mas infelizmente não temos consciência porque estamos atraindo esse tipo de situação ou perpetuando o sofrimento.
Enquanto não conseguimos acessar o agora e permanecemos presos aos nossos pensamentos e preocupações, vamos acumulando resíduos de sofrimento emocional. Isso se mistura com o sofrimento do passado, com os traumas que tivemos e com padrões emocionais que aprendemos ao longo da vida, e pode continuar influenciando a maneira como percebemos e reagimos ao presente. Eu faço um adendo: é aquela dor, angústia, aquele vício no sofrimento de que o Dr. Joe Dispenza fala, quando estamos tão acostumados a determinados estados emocionais que eles passam a parecer familiares. Eu gosto de ilustrar isso como uma sombra que nos acompanha. E isso pode ficar inativo ou, em alguém muito identificado com o corpo e com os problemas, pode permanecer ativado com muita frequência.
Nós todos temos um campo energético ao redor do corpo, e a energia flui nos dando vitalidade. Essa é uma maneira espiritual de compreender nossa experiência e de falar sobre aquilo que sentimos quando estamos em equilíbrio ou quando estamos em um estado de sobrevivência. Dentro dessa visão, quando estamos em um modo de sobrevivência, o corpo retira essa energia e a armazena nos três primeiros chakras. E o corpo de dor, esse sofrimento, pode ser compreendido, dentro dessa linha de pensamento, como um pedaço dessa energia vital que se desprendeu desse campo energético e se tornou uma entidade. Não estou falando aqui de uma entidade no sentido de algo que possa ser observado, mas energéticamente é como se fosse um monstrinho que está te seguindo esperando o momento certo para atacar.
Quando o corpo de dor desperta
Esse corpo de dor é uma entidade, um monstro que fica inativo e, quando sente fome, cria situações para que entremos em um estado de sofrimento e, assim, liberemos toda aquela carga negativa que, dentro dessa visão, vai liberar substâncias para satisfazer essa entidade. Quanto mais sofremos, mais podemos acabar criando ou repetindo situações que nos colocam nesse estado, e esse corpo de dor pode atacar tanto as pessoas ao nosso redor como nós mesmos. Podemos perceber isso, por exemplo, quando uma emoção parece tomar conta de nós e começamos a agir de uma maneira que, depois que a intensidade passa, nem sequer conseguimos compreender completamente.

O corpo de dor, antes de despertar, dá sinais, como impaciência, irritação, raiva, depressão, necessidade de arrumar alguma briga no relacionamento ou aquela sensação de que alguma coisa está errada, mesmo quando aparentemente está tudo bem. São momentos em que podemos começar a perceber que existe alguma coisa acontecendo dentro de nós antes de simplesmente reagirmos automaticamente a ela.
Como deixamos de alimentar o corpo de dor?
E esse corpo de dor só sobrevive porque acreditamos que somos ele, que a mochila cheia de pedras faz parte do nosso corpo, de quem nós somos. Mas, a partir do momento em que observamos que isso é apenas uma experiência que estamos vivendo, e não necessariamente aquilo que somos, começamos a criar uma distância entre a consciência e a emoção. Quando mantemos o foco naquilo que é positivo, elevamos a vibração e, principalmente, ficamos presentes, ele vai perdendo a força. Não significa que uma emoção difícil desapareça simplesmente porque pensamos positivo, mas que podemos deixar de alimentá-la com a nossa identificação e com a repetição automática dos mesmos pensamentos e comportamentos.
Mas, como uma entidade, ele não quer morrer. Então, quando você começar a observar e passar a não alimentar com energia esse corpo de dor, ele vai fazer de tudo para que nos identifiquemos com ele novamente. Se você já começou a fazer uma técnica e viu que tudo piorou, começou a pensar positivo e brigas aconteceram, não desanime. Imagine que isso é um pião que, mesmo sem energia, continua girando até perder a força. Às vezes, quando começamos a mudar um padrão, podemos simplesmente perceber com mais clareza aquilo que já estava acontecendo antes.
Crenças negativas e positivas
Nós vivemos em uma realidade que não é real. A realidade que experimentamos é também construída pela maneira como interpretamos o mundo, e o nosso sistema de crenças precisa se reforçar e se perpetuar para permitir que nós continuemos a acreditar na realidade que construímos. As crenças positivas são fáceis de serem reforçadas quando reconhecem algo que já podemos perceber em nós mesmos, como: “Você é linda”, “Você é poderosa”, “Você é criativa”. Já as crenças negativas podem trabalhar um pouco mais duro, jogar pesado, porque precisam nos convencer de que somos desconectados, que não temos valor, que não somos confiantes. Muitas vezes, uma crença negativa pode ter começado a partir de uma experiência real, mas se transformar em uma conclusão sobre quem somos que continua sendo repetida mesmo quando a nossa realidade já mudou.
E essas crenças precisam nos distrair para continuar nos alimentando, para continuar vivas, porque, quando percebemos que aquilo em que acreditávamos não precisa mais definir quem somos, começamos a questionar aquela realidade e ela pode perder força. Elas usam todas as ferramentas disponíveis e não é algo que fazem de maneira maliciosamente consciente; é simplesmente a maneira como esses padrões funcionam. Elas usam o medo: “Não tente ser feliz”, “Esmola quando é demais”, “Não acredite em si mesmo”, “Não siga sua paixão”, “Algo ruim vai acontecer e isso vai ficar pior”. Quanto mais medo temos de deixar uma crença, mais difícil pode parecer abandoná-la. E, quando começamos a perceber esse medo, isso também pode ser um sinal de que estamos chegando justamente a uma crença que precisa ser observada.
“Se você não encarar, se você não levar a luz da sua consciência para a dor, você será forçado a revivê-la repetidamente. O corpo de dor pode parecer para você um monstro perigoso que você não suporta olhar, mas eu lhe asseguro que é um fantasma insustentável que não pode prevalecer contra o poder da sua presença.”
O corpo de dor é incompatível com alegria, bem-estar e felicidade. Dentro da visão de Tolle, ele ganha poder quando nos identificamos com o desespero, o medo, a ansiedade e a luta. Isso não significa que uma pessoa não possa sentir alegria e sofrimento ao mesmo tempo, mas que, quando estamos completamente identificados com um estado de sofrimento, temos dificuldade de perceber que existe algo além daquela experiência emocional.
Como observar o corpo de dor
Você percebe que, muitas vezes, somente quando ficamos conscientes conseguimos começar a sair do sofrimento automático. E o que fazer com tudo isso? Após a crise emocional passar, escreva:

- O que aconteceu?
- O que eu senti?
- Essa emoção me lembra alguma situação anterior?
- Quantos anos eu tinha quando senti algo parecido pela primeira vez?
Muitas pessoas descobrem que a reação atual pertence, na verdade, a uma dor muito antiga. Isso não significa necessariamente que toda reação emocional tenha origem em um trauma, mas investigar de onde aquela sensação parece familiar pode nos ajudar a compreender melhor nossos próprios padrões.
O corpo de dor quer que eu me torne a emoção. A consciência me permite testemunhá-la até que ela passe.
A mente e a fuga do agora
Quanto mais nos identificamos com a mente, mais sofremos porque ela busca escapar do agora. Quando acreditamos em todos os pensamentos que aparecem, podemos acabar vivendo constantemente no passado ou no futuro, revivendo aquilo que aconteceu ou antecipando aquilo que ainda nem aconteceu.
A mente, para funcionar e permanecer no controle, precisa do tempo: passado ou futuro, e vê o agora, que é atemporal, como ameaçador. Isso faz parte da visão de Eckhart Tolle sobre a relação entre consciência, mente e presença. E talvez o exercício não seja parar de pensar ou abandonar o passado e o futuro, mas perceber quando estamos presos neles e retornar, conscientemente, para aquilo que está acontecendo neste momento.
Você não é a sua emoção
Talvez seja essa a verdadeira prática: perceber a emoção sem se tornar a emoção, perceber o pensamento sem acreditar automaticamente nele e perceber o sofrimento sem transformar esse sofrimento na nossa identidade. O corpo de dor pode ser entendido como tudo aquilo que carregamos e que continua buscando a nossa atenção. E, quando conseguimos observá-lo sem alimentá-lo com a nossa identificação, começamos a descobrir que existe uma parte de nós que é capaz de testemunhar tudo isso sem ser definida por aquilo que está sentindo.
Escrito por Mirian Meire
26 de setembro de 2026

